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sábado, 7 de abril de 2018

The Film Handbook#163: Ken Russell

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Ken Russell
Nascimento: 03/07/1927, Southamtpon, Hampshire, Inglaterra
Morte: 27/11/2011, Lymington, Hampshire, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1956-2009

A subjetividade extravagante e aversão ao realismo que marcou Henry Kenneth Alfred Russell como o mais bem sucedido realizador britânico do final dos anos 60 e idos de 70 rapidamente degenerou em excesso sensacionalista e tola fantasia alucinatória. O que uma vez fora antídoto valoroso para as noções constipadas de bom gosto agora parecia um desejo auto-consciente e vão de chocar e provocar.

Anteriormente dançarino, ator e fotógrafo, Russell irrompeu na televisão após realizar uma série de curtas amadores. Sua obra para a telinha impressionava por sua surpreendentemente visual e vibrante abordagem da vida de grandes artistas: dessa forma, seus "documentários" sobre Elgar, Debussy, Delius (Song of Summer) e Isadora Duncan se situam entre suas melhores façanhas, sendo menos biografias convencionais que tentativas de relacionar, através de imagens líricas,  as vidas dos artistas e a estrutura psíquica de suas obras. Em meados dos anos 60 ele realizou dois longas-metragens surpreendentemente anônimos (a sátira ligeira de uma pequena cidade costeira em French Dressing e o semi-paródico thriller de espionagem O Cérebro de um Bilhão de Dólares/The Billion Dollar Brain; somente com uma versão relativamente sensível de Mulheres Apaixonadas/Women in Love>1, de Lawrence, ele finalmente se estabeleceu como um talento cinematográfico digno de alguma nota, o filme se beneficiando do olhar de Russell para a imagem surpreendente e seu sentimento pelas qualidades expressivas da paisagem. Em Delírio de Amor/The Music Lovers>2 se permitiu maior liberdade, ilustrando a música de Tchaikovski (observado romanticamente como uma figura sexualmente atormentada, destruída mas inspirada pelas batalhas com a sociedade hipócrita e indiferente) com um simbolismo fervoroso sugestivo das próprias fantasias do diretor. Igualmente controverso foi o mórbido e criativamente ilustrado Os Demônios/The Devils>3, uma narrativa mais que tórrida do fanatismo religioso na França do século XVII, repleta de cenas de tortura, freiras sexualmente histéricas e padres fornicadores. Já então, o estilo dominava em detrimento da coerência e construção dos personagens.

Tendo feito sua fama com nudez, violência e insanidade, voltar-se-ia então para temas mais modestos como o musical ambientado nos anos 20 O Namoradinho (The Boy Friend) e O Messias Selvagem/The Savage Messiah, uma biografia do escultor Henri Gaudier Brezska. Ambos foram tediosos, no entanto. e para Mahler, Uma Paixão Violenta, Tommy (uma versão integralmente cantada da absurdamente pretensiosa ópera-rock do The Who) e Lizstomania (que retratava Lizst como um anacrônico astro do rock libertino) a direção de Russell, tornando-se crescentemente fantástica, sensacionalista e grotesca, desdenhosa dos dados factuais de seus biografados, apresentava um simbolismo fácil, banal e vulgar.

O primeiro filme de Russell nos Estados Unidos, uma biografia de Valentino, foi não menos equivocada. Parecia como se Russell estivesse agora enredado às suas próprias convenções iconoclastas: um descontrolado desprezo contra o qual artistas perturbados sexual ou emocionalmente trilhavam; escandalosamente abusivos símbolos freudianos e fantasia lúgubre. Mas Viagens Alucinantes/Altered States sugeria  uma mudança de rumo. Seu conto tradicional de um cientista cujas experiências em carência sensória levam-no a um regresso além do primitivo, produziu um série de vistosos efeitos especiais psicodélicos. Ainda mais atípico foi Crimes de Paixão/Crimes of Passion>4, seu enredo razoavelmente coerente descreve o encontro de uma prostituta, um tranquilo marido suburbano e um padre louco e constitui uma escabrosa, lasciva, mas em última instância rasa, sátira sobre os códigos morais americanos. Após retornar a Inglaterra, Russell se voltou novamente para a sua predileção pessoal por temas "artísticos": Gothic (um recriação ficcionalizada da noite em que Byron, Shelley e Mary Godwin realizaram uma sessão que inspiraria a escrita de Frankenstein), A Última Dança de Salomé/Salome's Last Dance (de Wilde) e A Maldição da Serpente/The Lair of the White Worn (de Bram Stoker), todos imersos em flatulento humor camp, atuações inábeis e uma ênfase datada na decadência sexual. Além do que, a antiga habilidade de Russell de elaborar cenografias visualmente surpreendentes haviam-no abandonado completamente.

A importância de Russell reside no modo como seu exemplo encorajou outros diretores britânicos a abandonar noções de realismo e tentar formas mais pessoais de realização cinematográfica. Sua própria carreira, no entanto, tem sido arruinada pela auto-indulgência e uma ânsia absurda e interminável de ser considerado perpetuamente como um eterno enfant terrible.

Cronologia
O Romantismo de Russell poderia localizá-lo numa tradição que teve seu apogeu com Michael Powell. Ao rejeitar o estilo realista, antecipa figuras como Roeg e Jarman (que realizou o desenho de produção tanto de Os Demônios quanto de O Messias Selvagem).

Leituras Futuras
An Appalling Talent: Ken Russell (Londres, 1973), de John Baxter.

Destaques
1. Mulheres Apaixonadas, Reino Unido, 1969 c/Oliver Reed, Alan Bates, Glenda Jackson, Jennie Linden

2. Delírio de Amor, Reino Unido, 1970 c/Richard Chamberlain, Glenda Jackson, Christopher Gable

3. Os Demônios, Reino Unido, 1971 c/Oliver Reed, Vanessa Redgrave, Dudley Sutton

4. Crimes de Paixão, EUA, 1984 c/Kathleen Turner, Anthony Perkins, John Laughlin

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 252-3.

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