CONTRA O GOLPE CIVIL-MIDIÁTICO-JUDICIÁRIO EM CURSO E PELO RETORNO DA DEMOCRACIA

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Filme do Dia: ...E O Vento Levou (1939), Victor Fleming


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...O Vento Levou (Gone with the Wind, EUA, 1939). Direção: Victor Fleming. Rot. Adaptado: Sidney Howard, a partir do romance homônimo de Margaret Mitchell. Fotografia: Ernest Haller. Música: Max Steiner. Montagem: Hal C.Kern. Dir. de arte: William Cameron Menzies & Lyle R. Wheeler. Cenografia: Howard Bristol. Figurinos: Walter Plunkett. Com: Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland, Leslie Howard, Hattie McDaniell, Thomas Mitchell, Barbara O’Neil, Butterfly McQueen, Ona Munson, Harry Davenport, Jane Darwell, Everett Brown, Carroll Nye, Cammie King Conlon.


A impetuosa Scarlett O’Hara (Leigh) é uma moça mimada pela família da aristocracia algodoeira sulista e cortejada pelos homens. Ela, porém, só tem olhos para Ashley (Howard) que, no entanto, casa-se com Melanie (De Havilland). O mundo que Scarlett conheceu desmorona com a deflagração da Guerra Civil. Indo trabalhar em um hospital em Atlanta, ela é fundamental para o nascimento do filho de Melanie, forçando o mal afamado Rhett Butler (Gable) a enfrentar toda a situação caótica de uma Atlanta incendiada a  voltar com ela até a fazenda dos pais, Tara, onde encontra a mãe morta e o pai algo enlouquecido, sendo que apenas dois empregados permaneceram, um deles Mommy (McDaniel). Scarlett se desespera com o imposto de 300 dólares que os Yankees cobram sobre Tara e no mesmo dia que um cobrador chega a decadente mansão, Scarlett os expulsa e o pai, inconformado, cavalga gritando impropérios contra eles até ser vítima de uma queda fatal. Scarlett tenta conseguir o dinheiro com Rhett Butler, que se encontra preso então e afirma que seu dinheiro se encontra distante de Atlanta. Scarlett casa-se por conveniência então com aquele que era prometido de sua irmã,  Frank Kennedy (Nye), e salda a dívida. Kennedy é morto em um atentado político do qual Ashley sai levemente ferido. Quando ainda prepara os funerais de seu marido falecido, Scarlett é pedida em casamento por Rhett Butler. Com o dinheiro de Butler, Tara vive um novo período de riqueza. Porém a relação entre Scarlett e Rhett nunca é completamente destituída de tensão. O que somente piora quando Rhett observa um retrato caído de Ashley no quarto de Scarlett, ou os dois são flagrados em atitude suspeita por um grupo de velhas fofoqueiras. E nem mesmo a morte da filha de ambos, Bonnie (Conlon) ou os preceitos de Melanie pouco antes de morrer conseguem manter unido o casal. Scarlett tenta desesperadamente fazer com que Rhett continue casado com ela, afirmando que agora compreendera que nunca fora apaixonada por Ashley, mas esse decide partir para Charleston.
Talvez nenhum outro filme traduza melhor o espetáculo hollywoodiano clássico em sua elevada potência que essa produção, grandiloquente e extravagante em todos os sentidos, de sua extensa metragem aos cuidados com os valores de produção de um filme de época, passando por sua paleta de cores igualmente carregada como também o é a sua trilha sonora, assim como a quantidade de extras que configuram as cenas de multidão e ainda as suas pausas que demarcam as mudanças em sua narrativa, tudo na acepção do que seu produtor, David Selznick, creditava que um cinema respeitável deveria apresentar. O resultado não pode deixar de levar em conta na sua fatura a compreensão que nem todo o dinheiro do mundo e cenários grandiloquentes, como o de Atlanta em chamas, correspondem necessariamente a criação de um senso atmosférico – produções infinitamente mais modestas como as de Val Lewton ou alguns filmes góticos igualmente da década seguinte conseguiram-no com muita maior agudeza – e podem mesmo soar um tanto artificiosos. Tampouco o paternalismo em relação aos empregados negros é tão distinto assim daquele que havia povoado o imaginário dos filmes de Griffith, com exceção do relativo maior destaque de um ou outro personagem. Vinculado a isso, observa-se o mundo que antecede a guerra civil como em plena harmonia e naturalidade, não havendo conflitos internos na sociedade escravocrata. E, em termos formais, usa-se maciçamente legendas que tanto sinalizam para a pretensão épica buscada quanto igualmente para um modo de narrar um tanto antiquado para os padrões do que viria logo a seguir, como o cinema noir ou uma narrativa de época de Welles (Soberba). As cenas coletivas, como a do baile em Tara ou o célebre plano que apresenta a quantidade surpreendente de feridos de guerra quando Scarlett busca o médico na iminência do parto de Melanie mesmo impactantes e, no caso da primeira, um prazer para os olhos, também sugerem certa vacuidade de propósitos que fará escola, mesmo entre um cinema de pretensões mais marcadamente reflexivas como é o caso de Visconti (O Leopardo). E quando ocorre uma conjugação de “elementos expressivos” (movimento arrebatado de câmera, cores contrastadamente fortes, ventania, silhueta recortada ao fundo e trilha sonora em seu pique) como é o caso de Scarlett e o pai ao lado de uma frondosa árvore com Tara ao fundo, essa que é uma das imagens icônicas do filme, é igualmente um testemunho de sua excessiva redundância dramática ou mesmo do potencial kitsch da empreitada. Dos três núcleos narrativos que o filme o estrutura o terceiro, de longe o mais melodramático, torna-se o mais precário, com vários eventos ocorrendo um atrás do outro de forma quase mecânica e comprimida, sobretudo ao final. E quanto a esse, ao mesmo tempo que recusa o tradicional happy end pode igualmente ser observado como um justiçamento para o egoísmo feminino de sua protagonista que, de forma ainda mais patética, automaticamente se volta mais uma vez para Tara e, pouco antes disso, finalmente se converte na mulher que corre desesperada atrás de seu homem. Dito isso, não há como deixar de lado várias qualidades na produção que transcendem a eficácia técnica de seu trabalho de câmera, assim como a sua meticulosa direção de arte, como é o caso das interpretações mais que afinadas, para o seu propósito, de praticamente todo o seu gigantesco elenco, assim como a presença de uma protagonista feminina longe de meramente passiva, romântica ou ingênua – papel esse delegado, de forma algo subliminarmente irônica à Melanie de de Havilland – que não se escusa em matar um soldado desertor yankee que invade sua residência ou casar por mero oportunismo com seus dois primeiros maridos, além de afirmar literalmente ser nada mais importante no mundo que o dinheiro. E Vivien Leigh, uma atriz britânica virtualmente desconhecida a encarna-la foi igualmente fundamental para seu sucesso, que não se torna assim impregnado de nenhuma estrela hollywoodiana de persona cinematográfica já consolidada. E o comentário cínico de Butler que afirma a prostituta maior honestidade que a esposa burguesa, mesmo que pelo viés grandemente misógino,  não deixa de acenar, sobretudo para uma possibilidade de leitura divertidamente crítica do casamento burguês, sobretudo aos olhos de um espectador pós-godardiano (notadamente Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela).  A caracterização de Tara demarca bem três períodos distintos: a bonança relativamente discreta da aristocracia rural pré-Guerra da Secessão, a penúria vivenciada ao final dessa e após e a decoração “nova rica” beirando ao mau gosto que se dá após a união de Scarlett com Butler, que já não possui mais aderência direta com o modo de vida da típica propriedade latifundiária escravocrata como dantes.  Teve participação não creditada de vários diretores, mais notadamente George Cukor. Selznick Int. Pictures/MGM para MGM. 238 minutos.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Filme do Dia: Pearls of the Deep (1965), Vera Chytilová, Jaromil Jires, Jiri Menzel, Jan Nemec & Evald Schorm


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Pearls of the Deep (Perlicky na Dne, Tchecoslováquia, 1966). Direção: Vera Chytilová (Automat Svet), Jaromil Jires (Romance), Jirí Menzel (Smrt pana Baltazara), Jan Nemec (Podvodníci) & Evald Schorm (Dum Radosti). Rot. adaptado: Vera Chytilová, Jaromil Jires, Jirí Menzel, Jan Nemec & Evald Schorm, baseado em contos de Bohumil Hrabal. Fotografia: Jaroslav Kucera. Música: Jan Klusák & Jirí Sust. Montagem: Miroslav Hájek & Jirina Lukesová. Com: Vladimir Boudník, Frantisek Havel, Ales Kosnar, Ivan Vyskocil.
Smrt pana Baltazara. Um casal se dirige em seu automóvel antigo para um autódromo aonde ocorrerá uma importante corrida de motos. Podvodníci. Dois artistas talentosos no passado se confrontam no final da vida. Um deles é escritor. O outro se dizia um dos grandes talentos da opereta tcheca, ainda que os funcionários do hospital somente tenham encontrado registro de sua participação no coro. Dum Radosti. Um pintor que utiliza as paredes de sua casa para expressar sua arte, que brota espontaneamente dos sonhos, recebe a visita de dois oficiais do governo. Automat Svet.  Em um bar onde uma garota se suicidou se celebra um animado casamento. Devido ao noivo ter sido considerado suspeito e levado para a delegacia, a noiva decide levar a noite de núpcias com um policial. Romance. Um jovem se enamora de uma garota cigana e vivem um juntos noite de amor e de expectativas para o futuro. No dia seguinte, ele a vai deixar no acampamento onde mora sua família.
Há uma evidente dívida para com a Nouvelle Vague, algo que fica patente já a partir do primeiro episódio, com travellings do sol escondido semi-oculto por entre árvores de copas elevadas, seqüência um tanto quanto evocativa de Acossado. Some-se a isso uma estética pseudo-documental, soberbamente registrada pela belíssima fotografia em p&b e uma certa ênfase no absurdo. E tal influência permanece visível ao longo do filme. Talvez ela se encontre menos presente no curta assinado por Nemec, notável pela utilização original dos primeiros planos da dupla protagonista. Sua ironia final, tipicamente anti-oficial, contrapõe a fala de um médico afirmando que tudo irá ocorrer bem com o novo paciente internado enquanto logo depois acompanhamos o traslado com o caixão do cantor de óperas – a frieza com que se descreve o evento e seu tom, ao menos ao final, anti-estabelishment, sugerem uma comparação com o posterior Titicut Follies (1968), documentário de Frederick Wiseman. Tanto no caso do realizador norte-americano quanto de Nemec, trata-se de ressaltar o quanto o elemento humano fica esmaecido quando passa a ser tido quase de uma mera estatística a quem se deve tratar. Destaque para a boa dupla de atores, talvez a mais afinada de todo o elenco do filme. O curta seguinte, o único colorido e com uma estética mais próxima das realizações futuras de Chytilová, possui ainda um tom de desforra com a autoridade estatal mais explícita, parecendo ser um comentário sobre as relações entre essa e o sempre premente desejo de liberdade do mundo artístico. Em Automat Svet, Chytilová tocará em outra dimensão trazida pela Nouvelle Vague, a da maior liberdade com relação à abordagem da sexualidade, sobretudo no caso aqui uma vanguardista posição em relação ao desejo feminino, expresso em termos estéticos em suas bela utilização de trucagens com uso de stop motion. Tal abordagem mais próxima da intimidade e da sexualidade será mais presente de todas no último curta, Romance, talvez igualmente o mais bem sucedido em sua por vezes pungente expressão da sensibilidade do universo de seus personagens sem precisar apelar para motivos mais abertamente marcados na elaboração visual ou de apelo pretensamente bizarro ou surrealista como boa parte dos outros. O modelo de curtas agrupados em longa-metragem, era uma das coqueluches do momento na indústria cinematográfica, sobretudo européia e de cunho autoral. Ceskoslovenský Stání Film.105 minutos.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Filme do Dia: Caindo no Ridículo (1996), Patrice Leconte


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Caindo no Ridículo (Ridicule, France, 1996) Direção: Patrice Leconte. Rot.Oiginal: Rémi Waterhouse. Fotografia: Thierry Arbogast. Música: Antoine Duhamel. Montagem: Joelle Hache. Com Charles Berling, Judith Godreche, Fanny Ardant, Jean Rochefort, Bernard Girardeau
Sem ousadias formais ou de conteúdo, o filme de Leconte segue a tradição das intrigas palacianas: jovem idealista (Berling) procura se envolver com a corte de Luís XVI para conseguir drenar o pântano da localidade provinciana onde vive, aonde gente do povo morre com frequência acometido por febre provocada  pelos  mosquitos.
Talvez o ridículo se encontre menos nas derrotas infligidas nos maldosos jogos, onde vale tudo desde que se mantenha a "espirituosidade" do que nos gestos e atitudes da nobreza como a queda de cavalo da marquesa (brilhantemente vivida por Fanny Ardant), um nobre que acorda subitamente descalço e acreditando-se em vias de ter uma audiência com ninguém menos que o rei ou a sequência final, quando o vento leva o chapéu do protetor do protagonista (não menos brilhantemente interpretado por Rochefort).O final não deixa de ser um pouco abrupto, mas talvez a solução - consciente ou não -  não tenha sido má, no sentido que a luta entre idealismo e cinismo da história foi identicamente interrompida com a chegada da Revolução de 1789. Não menos feliz foi a solução de recorrer as legendas no final, não apresentando a vitória do idealismo com a debandada dos nobres e o início dos trabalhos de dragagem do pântano, o que seria um tanto quanto desnecessário, já que o conflito que motivava o filme - com seus subenredos - não mais existia. Sem dúvida o senso de "timing" e os diálogos são mais sutis e elaborados que em Ligações Perigosas, de Frears, filme ao qual pode ser comparado. Polygram. 102 min.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Filme do Dia: Noon hour, Hope Webbing Co. (1903), Frederick S. Armitage


Noon Hour, Hope Webbing Co. (EUA, 1903). Fotografia: Frederick S. Armitage.

Um grupo de operários atravessa um descampado, tendo os muros da fábrica na qual trabalham ao lado, ao meio-dia, provavelmente se deslocando para o almoço. Exibições do operariado não eram incomuns no período e provavelmente significariam tanto uma demonstração de poder para os proprietários das empresas quanto uma forma de afagar os egos de seus trabalhadores. American Mutoscope & Biogrph. 1 minuto e 9 segundos.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Filme do Dia: ABC África (2001), Abbas Kiarostami


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ABC Africa (ABC Africa, Irã, 2001). Direção: Abbas Kiarostami. Fotografia: Seyfolah Samadian. Montagem: Abbas Kiarostami.  
Kiarostami documenta sua visita à Uganda e particularmente lhe interessa registrar aspectos do projeto organizado pelo Uweso para auto-financiar grupos de mães que criam órfãos da AIDS – quase 2 milhões de contaminados no país. O resultado é irregular: ao mesmo tempo que apresenta algumas sequências interessantes, como as de um número musical coletivo ou a seqüência final, com poéticas imagens das nuvens, sob o ponto de vista do avião  que leva uma criança africana adotada por um casal de europeus também demonstra, em linhas gerais, um abuso de imagens aleatórias e uma lacuna sobre o contexto político e econômico nacional que propiciou o surgimento de tal calamidade. Em outra seqüência o cineasta quer imprimir no ritmo fílmico a impaciência das noites completamente escuras que vivencia no hotel onde ficou alojado, na qual apenas houve-se diálogo e ruídos. Filmado em vídeo digital, também apresenta outras características inéditas na filmografia do cineasta, como sua investida no gênero documental e em filmagens fora do Irã. Por outro lado, deixa patente algumas marcas autorais como os longos planos a partir de carros em movimento ou ainda tomadas longas de pequenas ações. Um paralelo pode ser traçado com outro documentário de um cineasta igualmente de prestígio internacional, Buena Vista Social Club, também um filme à parte na filmografia de Wenders, ao qual são acrescentados tiques autorais. MK2 Diffusion. 83 minutos.

domingo, 15 de abril de 2018

The Film Handbook#164: Budd Boetticher

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Budd Boetticher
Nascimento: 29/07/1916, Chicago, Illinois, EUA
Morte: 29/11/2001, Ramona, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1942-1985

Apesar dos filmes de Oscar Boetticher Jr. (conhecido familiarmente como Budd) nunca tenham ido além do nível das produções B, junto ao ator Randolph Scott, do produtor Harry Joe Brown e do roteirista Burt Kennedy, realizou alguns dos mais criativos e perfeitamente realizados westerns jamais filmados.

Renunciando a uma carreira no futebol, o jovem Boetticher foi ao México para se tornar um toureador profissional, antes servindo como consultor em Sangue e Areia/Blood and Sand, de Mamoulian. Ele então progrediu de assistente a diretor de thrillers e westerns de baixo orçamento, ainda que com exceção de dois - Paixão de Toureiro/Bullfighter and the Lady e O Magnífico Matador/The Magnificent Matador - a maior parte de seus primeiros filmes tenha sido meramente rotineira. Somente em meados dos anos 50 foi que seu talento para o forte drama, tingido com um sombrio e mesmo cômico senso de ironia, floresceu.

Um primeiro western realizado com Kennedy e Scott, 7 Homens Sem Destino/7 Men from Now foi fundamental para estabelecer a persona de Scott enquanto um solitário, agora obcecadamente determinado a provocar vingança do assassinato de sua mulher. Mais sutil, no entanto, foi O Resgate do Bandoleiro/The Tall T>1 que trabalhou maravilhosamente somente com uma cabana no deserto e um punhado de atores, enquanto Scott embarcava em uma batalha de morte com o líder da gangue, Richard Boone - sendo ameaçadas as vidas dos hóspedes que se mantém na estação da diligência. O conflito, caracteristicamente ambientado em uma paisagem estéril e miserável que reflete a árida auto-confiança do herói, tomou partido de sua austeridade pessimisticamente mítica, enquanto as habilidosas caracterizações (o solitário e saudoso Boone é talvez mais verdadeiramente humano que Scott) acrescentavam complexidades psicológicas e morais que transcendiam as convenções do western B.

Em Fibra de Heróis/Buchanan Rides Alone>2 o gosto de Boetticher pelo absurdo produziu um western no limite da paródia; a cidade corrupta no qual o inocente Scott meramente vagueia o confunde, enquanto seus inimigos (três irmãos) estão demasiado ocupados enganando a si próprios para lhe provocarem muito risco. Traição e blefe formam o âmago do universo de Boetticher. Tanto em O Homem que Luta Só/Ride Lonesome>3 quanto em Calvagada Trágica/Comanche Station>4 os vilões, mais uma vez simpáticos, sempre alardeiam como irão enganar Scott  fora de seu deserto, enquanto ele, por sua vez, encobre seu orgulho e seus planos de vingança por trás da máscara de jogador de pôquer.

Boetticher observava seus heróis, presos ao passado e condenados a vagar, com não menos sentimentalidade que seus foras da lei, que tentam, frequentemente de forma desesperada, esquecer seus modos criminosos e se estabelecerem em um local. Em seu mais sombrio filme de todos, O Rei dos Facínoras/The Rise and Fall of Legs Diamond>5,  o cáustico sol do deserto é substituído por um pesadelo urbano sombrio e claustrofóbico. O trapaceiro psicopático de Boetticher, interpretado com implacável energia por Ray Danton, é uma figura completamente amoral, cuja sede de poder leva-o a destruir mesmo seu irmão para se proteger. Rápido, cruel e violento, o filme é uma das mais pessimistas visões do cinema da ambição desenfreada.

Cansado de Hollywood, Boetticher retornou ao México onde, por quase uma década, trabalhou em um documentário sobre o toureiro Carlos Arruza. Em 1969, tendo sofrido vários revéses, finalmente retornou aos Estados Unidos, onde escreveu um roteiro original para Os Abutres Têm Fome/Two Mules for Sister Sara, de Don Siegel e dirigiu um último western, Gatilhos da Violência/A Time for Dying.

O forte de Boetticher durante seu período mais fértil reside não em se chocar com o gênero western, mas em trabalhar de forma inteligente e altamente pessoal variações em um tema simples e repetido. Raramente as limitações das produções de baixo orçamento, com seus pequenos elencos, roteiros concisos e fortes exteriores renderam resultado de tal consistência.

Cronologia
Os filmes de Boetticher  evitam a poesia de Ford, seus cenários melancólicos, violência e personagens condenados antecipam a obra de Peckinpah e Leone. De forma interessante, Burt Kennedy se tornaria um diretor regular de westerns nos anos 60, ainda que seus roteiros tensos para Boetticher foram substituídos por um humor compassado e leve. Diretores menores de western dos anos 50 incluem André De Toth, Delmer Daves e o mais conhecido John Sturges.

Destaques
1. O Resgate do Bandoleiro, EUA, 1957 c/Randolph Scott, Richard Boone, Maureen O'Sullivan

2. Fibra de Heróis, EUA, 1958 c/Randolph Scott, Craig Stevens, Barry Kelley

3. O Homem que Luta Só, EUA, 1959 c/Randolph Scott, Karen Steele, Pernell Roberts

4. Cavalgada Trágica, EUA, 1960 c/Randolph Scott, Claude Akins, Nancy Gates

5. O Rei dos Facínoras, EUA, 1960 c/Ray Danton, Karen Steele, Warren Oates

Leituras Futuras
Horizons West (Londres, 1969), de Jim Kitses

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 28-9.

Filme do Dia: O Escorpião de Jade (2001), Woody Allen


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O Escorpião de Jade (The Course of the Jade Scorpion, EUA/Alemanha, 2001). Direção e Rot. Original: Woody Allen. Fotografia: Zhao Fei. Montagem: Alisa Lepselter. Dir. de arte: Santo Loquasto & Tom Warren. Cenografia: Jessica Lanier. Figurinos: Susanne McCabe. Com: Woody Allen, Helen Hunt, Charlize Theron, Dan Aykroyd, Elizabeth Berkley, John Schuck, John Tormey, Kaili Vernoff, Wallace Shawn, David Ogden Stiers.
           Nova York, anos 40. C.W. Briggs (Allen), que possui o respeito de seus pares na companhia de seguros, onde sempre consegue resolver os casos misteriosos de roubo, passa a se sentir ameaçado com a chegada da dinâmica loura Betty Ann Fitzgerald (Hunt). Betty Ann, amante do dono da companhia, Chris Magruder (Akroyd), acredita que Briggs e sua intuição é coisa do passado e faz necessário que a firma modernize-se. Em um espetáculo de mágica, Briggs e Betty Ann tornam-se vítimas do inescrupuloso Voltan (Stiers), que consegue mantê-los sob  transe a partir de algumas palavras mágicas e assaltarem as jóias dos milionários, que são assegurados pelo sistema de segurança bolado pelo próprio Briggs. Investigando sem saber os seus próprio atos, Briggs tomará como principal suspeita Betty Ann, com quem vive às turras. Depois de ser descoberto e fugir da prisão, Briggs fica a par de tudo, assim que o colega de trabalho, George Bond (Shawn), refere-se ao hipnotizador. No último momento, desfaz o casamento entre Betty Ann e Magruder, após pronunciar a palavra mágica.
        Esse tributo ao cinema noir, sobretudo a Pacto de Sangue (1944), de BillyWilder, é decepcionantemente pouco original e repete muito dos cacoetes de filmes anteriores do cineasta, inclusive do muito mais charmoso e divertido Um Misterioso Assassinato em Manhattan que já possuía uma seqüência-tributo ao filme clássico de Wilder, embora fosse ambientado em uma Nova York contemporânea. A sensação de deja vu se torna imperativa, seja no momento em que Briggs é preso e posa para fotografia para à polícia (como em Memórias), que é surpreendido no apartamento de Betty Ann (como em Um Misterioso Assassinato em Manhattan ) ou do próprio espetáculo de mágica (como no episódio de Contos de Nova York). Como descrição de um personagem sem o “glamour” de seu alter-ego de classe média alta, nas suas comédias contemporâneas, o filme é bem menos interessante que Broadway Danny Rose e, mesmo, do menos bem sucedido Trapaceiros, que soam mais autorais e menos presos as convenções dos filmes de gênero que fazem referência. Sem boa parte da equipe técnica que o acompanhou por muito tempo, o filme parece igualmente se ressentir do habitual tino do cineasta para valorizar coadjuvantes, embora o apuro com a direção de arte e a fotografia permaneça o mesmo. Dreamworks/Gravier Productions/Jack Rollins & Charles H. Joffe/Perido Productions/VCL Communications GmbH. 103 minutos.


sábado, 14 de abril de 2018

Filme do Dia: Os Irmãos da Família Toda (1941), Yasujirô Ozu


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Os Irmãos da Família Toda (Todake no kyodai ,  Japão,  1941). Direção: Yasujiro Ozu. Rot. Original: Yasujiro Ozo & Tadao Ikeda. Fotografia: Yuuharu Atsuta. Música: Senji Itô. Com: Mieko Takamine, Shin Saburi, Hideo Fujino, Ayako Katsuragi, Mitsuko Yoshikawa, Masao Hayama, Tatsuo Saito, Kuniko Miyake, Michiko Kuwano, Choko Iida.
Após uma reunião familiar que resulta pouco depois na morte do seu patriarca (Fujino), a próspera família Toda se vê envolvida em uma relativa dificuldade financeira. Enquanto o filho mais jovem e considerado a “ovelha negra” da família, Shojiro (Saburi), decide ir trabalhar na China, a mulher mais jovem, Setsuko (Takamine) decide ir morar com a mãe (Katsuragi), na casa do irmão mais velho, Shinichiro (Saito), por conta da mansão ter sido vendida como pagamento das dívidas deixadas pelo falecido. Em pouco tempo, tensões surgem, e Setsuko e mãe vão morar somente com a fiel criada (Iida) em uma humilde residência. Quando o filho retorna da China para a cerimônia de um ano do falecimento do pai, ele destrata toda a família por terem deixado que a mãe vivesse em tal local, a convidando, juntamente com Setsuko, a criada e o pássaro de estimação a viverem junto a ele na China, dispensando  a noiva que Setsuko lhe arranjou, Tokiko (Kuwano).
Essa fábula, que muitos acreditam ter uma forte dimensão autobiográfica (Ozu jamais casou e viveu com sua mãe boa parte da vida), é marcante não apenas pela habitual elegância “excêntrica” como os planos são dispostos como – e fundamentalmente em conseqüência dessa estratégia visual – pela contenção habitual, inclusive nos momentos de maior tensão, tendo como exemplo  a nora da Sra. Toda pedindo que ela fique afastada do neto, por ter criado uma cumplicidade com ele, ao ponto de acatar o pedido dela para não informar a mãe que houvera faltado a escola ou ainda na rusga final de Shojiro contra o restante da família. É evidente a simpatia que Ozu nutre pelos dois personagens mais jovens, solitários, frágeis e não participantes ainda de suas próprias vidas familiares como os outros filhos. Porém, é em meio a tudo isso que a voz de Shojiro vem demarcar sua bravura moral com relação a mãe renegada a um certo ostracismo na última fase da vida. Fundamental para o efeito agridoce que tende a se intensificar quanto mais o filme avança – e que certamente influenciou bastante cineastas, como o Edward Yang de As Coisas Simples da Vida (2000) – é o brilhante e afinado elenco, com destaque para Katsuragi, Saburi, Takamine e também para o ator que encarna o neto. O fato do ambiente familiar pertencer a uma família bem mais rica do que os personagens habituais, mesmo que enfrentando uma situação posterior de decadência talvez se encontre envolvido com as pressões políticas e morais impostas por um regime autoritário. Shochiko Eiga. 105 minutos.